Hoje apresentamos um trabalho de Letra Morta, publicado em "A Praça" (seu blogue). Boa Leitura!
Irmã
por Letra Morta
Ela comprou um saquinho de pipocas e caminhou um pouco pela calçada da praça. Escolheu um banco em um local bem isolado e sentou-se. O lenço saiu de posição. Ela enfiou a mão por dentro da touca, puxou o lenço para cima e apertou o laço. Aquilo a cansava, às vezes. Tinha que estar em constante alerta e isso diminuía um pouco o prazer de fazer as coisas. Parecia estar sempre vivendo pela metade, participando de tudo pela metade porque uma parte de si precisava estar sempre tomando conta do lenço, da touca, do chapéu... Era mais fácil no inverno. Mas no verão de um país tropical era uma coisa até difícil de explicar para os outros. Isso, afora o calor que sentia na cabeça; quão desagradável!
Jogou uma pipoca no chão. Os pombos vieram de várias direções e começaram a disputar a migalha. Colocou as pipocas de lado, abriu a bolsa e tirou uma carta. De vez em quando, recebia notícias da irmã mais nova. Os negócios iam bem. Como sempre. Novos mercados, novos países, novas partidas de mármores, granitos e quaisquer outros tipos de pedras decorativas. Adorava a caçula, mas não suportava a forma como a pequena fazia piada da maldição de sua família. E ela sempre fazia piada. Há muito tempo atrás pensou que ela, um dia, passaria a respeitar a memória do triste destino, mas o tempo passou e ela nunca deu a mínima. No fundo, talvez estivesse certa. Como seria bom não cultuar o passado! Viver como a irmã; rir de sua própria desgraça.
Cuidar dos negócios, praticar esportes, viajar, curtir as paixões. Não, não exatamente como a irmã. Não apreciava muita badalação. O que ela curtia era dar aulas para seus alunos; tão talentosos! Ler os livros de arte e cultura que escolhia com cuidado para sua estante. E, secretamente para que não fosse execrada pela comunidade acadêmica, gostava de devorar aqueles romances melados de adolescentes, vendidos praticamente a quilo nos sebos que freqüentava. Mas em todas as coisas, em cada pequena fresta de sua vida, parecia haver sempre algum detalhe que a levava de volta aos dias distantes, à época em que a irmã mais velha ainda vivia. À época antes que houvesse ajudado o assassino a dar cabo da desgraçada.
O lenço saiu de posição. Ela enfiou a mão por dentro da touca, puxou o lenço para cima e apertou o laço. Aquilo era desagradável. Um lembrete constante de como era anormal sua presença, ali, entre as pessoas, vivendo e se relacionando com elas como se fossem iguais; como se não fossem apenas insetos, prontos para serem exterminados com um gesto. Não! Não era assim que pensava. Essa era sua irmã mais velha falando por sua boca. Sempre dominadora mesmo estando morta. Tão segura, tão imponente, tão cruel. Provavelmente fora a fama de sua personalidade abominável que dera origem aos absurdos contados nas lendas e nas poesias antigas. Um apanhado de absurdos e parvoíces, assentado mais na ignorância e assombro daqueles dias do que na verdade.
Verdade! Apenas uma inspiração distante para as narrativas que correram os séculos. Mas assim era a gênese dos mitos. Todos eles.
O pior de se lembrar da irmã era que imediatamente se lembrava de Niklas. Niklas dos olhos inocentes. Niklas do coração tão puro que ela podia ver seu brilho. O filho dos pescadores, únicas pessoas que se arriscavam a aproximar da ilha onde vivia com as outras duas. O moço, lindo, herdara a coragem do pai. Era o velho que levava os peixes e mantimentos. Depois, já impedido pelo preço que o mar cobrou de sua saúde, passou ao filho a responsabilidade. De olhos vendados, o jovem saltava na praia e agüentava as imprecações e ameaças da tirana infeliz. Mas ele não baixava a cabeça e não se deixava assustar, apesar de estar à sua mercê. Não! Não só da abominação. As mais jovens tinham personalidades detestáveis naquela época, embora pudessem ser chamadas até de simpáticas se comparadas à mais velha. Mas o rapaz era sempre firme e sereno. Jamais alguém zelara melhor pelo acordo que garantia os víveres das três: ele trazia a comida e levava, em troca, as pedras de fino mármore que eram vendidas a artistas e arquitetos.
O lenço saiu de posição. Ela enfiou a mão por dentro da touca, puxou o lenço para cima e apertou o laço.
Já conhecia Niklas desde quando o velho o levara para o mar, ainda menino, quase. Ele cresceu ajudando o pai e descobrindo os segredos do oceano, aprendendo os ardis para capturar os peixes e os cardumes; desenvolvendo-se em força, beleza e bravura. E, de longe, ela o observava, evitando a todo custo que ele pudesse vê-la.
A lembrança era forte e lágrimas surgiram. Minuciosamente ela examinou os arredores. A praça estava quase vazia naquela hora. Curvou-se para o lado e, cuidadosamente, ergueu um pouco a base dos óculos escuros que lhe comprimiam a face. Secou rapidamente os olhos úmidos e recolocou os óculos no lugar.
Lembrou-se do rosto da irmã. Ninguém poderia fazer idéia do ódio que sentia, mesmo depois de tanto tempo. Como gostaria de tê-la matado pessoalmente! Apenas uma vez, em toda sua existência, quis usar de verdade o poder. Quis controlar aquela força ignóbil e maldita para aniquilar a irmã maligna. Quão lastimável era o fato da desgraçada ter o mesmo dom e, por isso, ser imune aos efeitos daquele sortilégio! Se houvesse justiça no mundo, a perversa teria sido fulminada muito antes que a desventura pudesse ter acontecido, antes que pudesse descobrir as visitas que Niklas lhe fazia em segredo. Se as coisa fossem perfeitas, ela jamais teria visto os amantes. E não teria invejado os abraços e beijos cheios de paixão.
O lenço saiu de posição.
Ela já estava cansada de lembrar daquilo. De se lembrar de como a irmã mais velha a atraíra para longe da ilha e de como havia apreciado contar depois cada detalhe da história infame. A traiçoeira se fez passar por ela quando ele chegou naquela noite sinistra. Ele sempre estava com a venda nos olhos e assim foi enganado. A maldita quis saborear o prazer que sempre esteve fora de seu alcance. E como gostou de fazer aquilo! Mas isso ainda não foi o bastante. Depois de saciar-se veio a suprema perfídia: ela o fez acreditar que havia coberto seus próprios olhos para que ele a visse em segurança e ele desvendou-se.
Sob a touca, era possível ver algo se movimentando.
Do resto, ela não conseguia suportar a lembrança. Era doloroso demais. Mas ela teve sua vingança, infelizmente na forma de um estúpido tão apavorado que teve que ser levado praticamente bêbado para a ilha; do contrário, seu medo o teria impedido. Ela também teve que convencer a irmã mais nova a participar da desforra porque a outra era muito forte. Mas não foi tão difícil, pois a pequena também se ressentia do seu despotismo. Juntas elas imobilizaram e ensacaram sua cabeça para que o palerma pudesse se aproximar, trêmulo e hesitante, e fazer seu serviço. E até hoje ele ainda era exaltado pelo seu heroísmo; haja paciência!
Estava triste, estava contrariada, estava com raiva. Queria que alguém mais experimentasse um sabor desagradável, tal como aquelas lembranças. Na borda da touca, uma pequena língua bífida apareceu e farejou o ar. Sentiu o cheiro dos pombos. Ela enfiou a mão sob a touca e segurou com força a dona da língua. Era uma pequena serpente. Pegou uma pipoca e enfiou pela goela da cobrinha adentro. A víbora, mesmo contrariada, não teve opção senão engolir o petisco. Ela empurrou a cobra para junto das outras, sob o lenço.
Puxou o lenço para cima e apertou o laço.